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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

MECANISMO DE DEFESA

MECANISMO DE DEFESA

INTRODUÇÃO
Em todas as oportunidades que tive na observação do comportamento humano, a característica que me pareceu mais interessante foi a da utilização dos mecanismos de defesa.
Tais observações regressam muito no tempo, coletando dados desde a época do início da vida escolar, em escolas particulares, onde algumas crianças, ainda pré-adolescentes, já mostravam alguns sinais de procedimentos de defesa, tanto exagerando qualidades para esconder defeitos, como procurando dar ênfase às limitações de algum colega com a intenção, mesmo inconsciente, de ignorar os seus próprios problemas.
Os colegas das escolas públicas secundárias já constituíram material mais bem elaborado, já que a idade média dos treze e quatorze anos começava a exigir desses adolescentes um procedimento social mais difícil, principalmente em relação ao sexo oposto, onde começava a pesar a sua formação psico-sexual.
O material mais farto para as observações foi obtido nos anos seguintes, com a convivência, vinte e quatro horas por dia, com inúmeros colegas das mais diversas procedências e formações, em internato militar de formação acadêmica.
Não posso negar que tal fase foi a mais rica em material analisável, embora muitas das conclusões tenham sido enriquecidas pelos períodos posteriores, em países estrangeiros, principalmente a Austrália e Grã-Bretanha, onde o conhecimento de outros povos e culturas possibilitou uma diferenciação da amostragem e facilitou a descoberta de semelhanças e algumas grandes diferenças.
O universo observado na Austrália foi limitado a três cidades, Adelaide, Elisabeth e Melbourne e mostrou um sentimento grande de realidade, onde a maioria das pessoas se mostrava sem rodeios ou dissimulações, parecendo uma situação de honestidade para consigo mesmo, diferente do que havia sido observado em no Brasil.
Na Grã-Bretanha, entretanto, as dissimulações apareciam constantemente, sendo freqüentemente encontrados procedimentos exteriorizados, deixando bem claro a evidência de alguma forte repressão em seus verdadeiros sentimentos.
Em grande parte dos casos, quando esses mecanismos pareciam ser constituídos de "defesas ineficazes", percebia-se a dificuldade em sua dissimulação, ficando evidente para um observador mais atento e, portanto, fácil para o processo de identificação executado pelo analista.
Nos casos que identifiquei como "defesas bem sucedidas" a dissimulação era mais eficiente, dificultando a identificação da neurose. Entretanto, como tais mecanismos "geram a cessação daquilo que se rejeita"(Fenichel, 1997, pág.131), a falha na identificação pouca importância terá para o paciente, já que praticamente resolvem-­se por si mesmas, independente da ajuda externa.

Como funcionam os mecanismos de defesa
Os mecanismos de defesa podem ser considerados eficazes, quando conseguem eliminar o fato rejeitado; ou ineficazes, quando nunca o eliminam, perpetuando assim as ações defensivas do indivíduo.
Se a defesa foi eficaz, raramente haverá uma neurose de muita importância a ser tratada.
Entretanto, quando uma defesa é caracterizada pela necessidade permanente de comportamentos substitutivos para evitar que o objeto verdadeiro do instinto apareça, ela não é uma defesa eficaz, pois necessita de ação permanente do indivíduo mais em busca de um auto-convencimento do que do convencimento da própria sociedade, e esse comportamento é um comportamento neurótico que deve ser tratado.

Sublimação
Existe o impulso original em busca de uma determinada finalidade ou de um determinado objeto.
A satisfação desse instinto está em desacordo com os padrões morais, éticos ou comportamentais do grupo ao qual pertence o indivíduo e ele tem consciência disso.
Sua conduta, a partir daí, poderá assumir diversos caminhos e, a depender desse caminho haverá o aparecimento, ou não, de um aspecto neurótico a ser tratado.
Se o indivíduo dá vazão a seus instintos, dificilmente apresentará problemas de neuroses, mas pode estar indo de encontro à sociedade na qual está inserido e, se seu comportamento estiver em desacordo com o padrão dessa sociedade, esse indivíduo estará causando problemas que podem ser interpretados, inclusive, como desvios de caráter, de personalidade ou problemas mentais.
Sabendo da discrepância entre seus instintos e a conduta determinada pela sociedade, o indivíduo pode adotar uma conduta de substituição de objetos ou finalidades.
Se o indivíduo consegue substituir essa finalidade ou esse objeto por outro, desde que essa transformação lhe traga uma satisfação pessoal bastante agradável, existe a possibilidade de descarregar todos os seus impulsos anteriores nesse novo ideal, pois haverá a geração de satisfação plena, o que acabará por anular, a longo prazo, o objeto anterior.
Nesses casos a neurose reduz-se a níveis tão insignificantes que pode ser desprezada, podendo ser considerada uma sublimação com êxito.
Esse êxito proveniente da sublimação se dá quando:
a) há inibição do objetivo;
b) consegue-se sua dessexualização;
c) o instinto é totalmente absorvido em suas seqüelas;
d) há alteração dentro do ego.
A grande força da sublimação, quando ela se limita a inibição do objetivo, é que a ação desse indivíduo continuará existindo, com a diferença de que o seu instinto estará dessexualizado e subordinado ao ego reorganizado.
''É possível ver precursores das sublimações em certas brincadeiras infantis, nas quais os desejos sexuais se satisfazem por uma forma dessexualizada em seguida a certa distorção da finalidade ou do objeto,' e as identificações também são decisivas neste tipo de brincadeiras. "(Fenichel, 1997, pág. 132). Isso valoriza os próprios instintos do indivíduo, transformando-os de amorais ou inadequados a morais, adequados e até elogiáveis, em alguns casos, trazendo uma sensação de satisfação plena que, naturalmente eliminará qualquer vestígio de problemas neuróticos.

Defesas patológicas
A forma pela qual o indivíduo manipula os conflitos entre suas exigências instintivas e seu medo ou sentimento de culpa define se seu comportamento pode ser considerado um caso patológico ou não.
Se a exigência instintiva do indivíduo está dentro do plano da normalidade comportamental da sociedade e se ele é capaz de promover sua própria satisfação periodicamente, esse indivíduo estará sempre colaborando para a manutenção de sua perfeita saúde mental.
Se, no entanto, seus instintos foram e são definitivamente contidos, como no caso do cerceamento, pelos pais, de ações de satisfação normais dos filhos, aparece a figura da rejeição do instinto.
Quando tive a oportunidade de defender a necessidade da educação neutra e participativa, no último Congresso Internacional pela Liberdade Religiosa, declarei que: "Se todos os pais educassem corretamente os filhos, aplicando as doses certas de tolerância, a dose certa de correção e a permanente demonstração de integração, carinho e amor, não haveria campo para o desenvolvimento da psicanálise. "(Andersen, - palestra em São Paulo - out-98).
Como essa educação correta não é comum nos dias atuais, não foi nos dias de ontem, e nem é fácil de ser aplicada sem uma conscientização plena dos pais, aparecem os problemas da rejeição, provocando na criança a procura de uma forma para descarregar esse instinto contido, de maneira indireta.
A criança, nessa procura, tentará achar em alguma forma instintiva associada, o seu meio ideal para descarregar.
A tensão da procura é um dos fatores que colaboram para a tendência natural de aumento da intensidade do impulso derivado, ficando maior ainda do que o impulso original.
A substituição do objeto ou da finalidade foi feita, a intensidade do impulso aumentou e a neurose está estabelecida.
Nesse momento está sendo formada nessa criança uma defesa caracterizada como patogênica. “Todas as defesas patogênicas enraízam-se na infância,' e não existe neurose que não tenha raiz na infância" (Fenichel, 1997, pág. 133).
Dessa criança será formado um adulto neurótico,' podendo chegar a ser obsessivo, a depender do processo de repressão de seu próprio instinto, conhecido como contracarga (contracatexis): contracatexis constitui parte integrante das resistências contra a reemergência das tendências instintivas repelidas" (Nunberg/ 1989, pág. 261).

O desmaio na defesa patológica
O desmaio deve ser analisado como uma forma muito próxima de um padrão comportamental do neurótico que se utiliza de defesas patogênicas.
Com o desmaio o indivíduo consegue abandonar funções e órgãos ameaçados, alcançando a gratificação de seus instintos ou até a defesa contra eles.
Embora sem o clímax do desmaio, acompanho um adolescente que apresenta uma aparente cessação parcial de suas funções mentais, com características muito semelhantes às do "autista", sempre quando está próximo da mãe ou da avó, mas que, na ausência delas, aparenta normalidade absoluta de comportamento.

O processo - considerações gerais
Minhas observações até então não tenham sido motivadas por interesses psicanalíticos, mas por uma grande preocupação para com as graves conseqüências das projeções e repressões, conscientes ou não, dissimuladas em excesso de devoção religiosa.
Acredito que existe um perigo incalculável, tanto para o indivíduo como para as pessoas com as quais convive, principalmente se esse indivíduo é um ministro de alguma instituição religiosa.
A aparência externa bastante dissimulada pode até enganar a muitos, já que seu "invólucro" mostra elevadíssima rigidez de caráter como um paladino da moralidade, intransigente para com os que não comungam com seu modo de vida, exageradamente exigente na educação de seus filhos e, por isso mesmo, ocupando posição de destaque em sua comunidade religiosa.
As características mais diferenciadas e que já facilitam a sua identificação são percebidas na defesa exagerada de certas posições dogmáticas acompanhada de total intolerância a pensamentos questionadores, mostrando claramente uma explicável fuga à ampliação de seu próprio conhecimento e compreensão, como se as informações recebidas pudessem servir como uma perigosa bomba moral para destruir suas própria convicções, levando-o ao abismo ateísta.
O medo de incentivar a comunicação livre entre as pessoas é explicado pelo medo da descoberta de sua própria verdade, já que a comunicação possibilita o questionamento, desenvolve o raciocínio e amplia o conhecimento, levando, invariavelmente, a verdade.
O procedimento desse religioso é explicar tudo por meio de seu livro sagrado, impedindo, com a ameaça de estar cometendo algum grande pecado, qualquer forma de questionamento.

A origem - o medo - a realidade virtual
A origem de seus problemas encontra-se no seu próprio interior, já que sua tendência de "modus viventi" é completamente inaceitável para os padrões de comportamento que deseja transparecer para a sociedade com a qual convive.
Em certos casos essa tendência é conhecida e a luta pela dissimulação é consciente, mas em grande parte das situações essa pessoa considera a sua verdade tão perigosa que consegue dissimulá-la de si mesmo, e o medo de ser por ela vencido determina a construção de uma imensa barreira psicológica na tentativa de sua completa eliminação.
O medo de não conseguir resistir à tentação do seu instinto determina o esquecimento real da verdade.
Para esse combate é montada uma "realidade virtual" onde seus valores devem ser muito rígidos, de modo a não permitir nenhuma espécie de desvio de seu próprio comportamento: é a construção da barreira.
Nessa construção defensiva o elemento mais fácil de ser usado é o dogma religioso Se essa realidade virtual aparecesse em forma de uma dedicação artística, ou qualquer outro tipo de atividade que não influenciasse diretamente as pessoas, seriam casos de sublimação positiva, com resultados até bem aproveitáveis pela humanidade.

As tragédias
Quando, no entanto, o mecanismo de defesa é a dedicação religiosa, tem início o processo de hipocrisia testamental, cujos resultados podem ser bastante semelhantes ao conseguido por Luc Jouret, na Suíça, ou Jim Johnes, na Guiana e muitos outros.
Nesses casos houve grande prejuízo para a humanidade, pois ceifaram-se vidas inocentes sem o menor propósito, tudo como conseqüência de um fanatismo religioso desencadeado por pessoas que escondiam de si mesmas as suas verdades interiores e, para superar suas fraquezas dedicaram-se ao convencimento de seus seguidores à uma verdade inconsistente e frágil.
No momento em que alguns começaram a perceber que sua fé estava calcada em valores irreais e inaceitáveis, o perigo da descoberta da verdade determinou o massacre.. .
Existe o fato e ele deve ser examinado de modo a se evitar as conseqüências danosas à sociedade, embora essa não seja a missão do psicanalista, a não ser que tais elementos caiam na realidade e resolvam iniciar um tratamento, o que é muito difícil, já que elas não acreditam que sua verdade seja diferente do que apregoam.

O "pai perfeito" e o filho desajustado
Em uma turma de formação de psicanalistas em uma determinada época, um dos alunos, pastor de igreja evangélica em cidade de médio porte, apresentou o seguinte relato: "Em viagem de férias tive a oportunidade de visitar uma igreja muito humilde no sul do país onde encontrei um pastor também humilde, roupas surradas, residência pobre, e que me recebeu muito bem.
Sua esposa preparou um jantar, onde notava-se a grande dificuldade financeira por que passavam.
Seus filhos, um casal, completavam o ambiente, e em conversa com eles descobri que estudavam em escola pública, junto com as pessoas também carentes do povoado.
Surpreendi-me quando o menino, em conversa comigo, respondeu-me que seu desejo, quando crescer, é ser pastor, como o pai e a menina, logo em seguida, confessou-me que seu maior desejo é via a casar-se com um pastor. Ambos diziam isso com muito orgulho, espelhando-se na profissão do pai.
Minha surpresa prende-se ao meu caso. Sou pastor principal de uma boa igreja, que me paga um bom salário, que me possibilita morar em uma boa casa no melhor bairro da cidade. Minha mulher e eu temos carro zero e meus filhos, também um casal, estudam em um dos melhores colégios particulares da cidade.
Entretanto meus filhos têm vergonha de minha profissão, procurando, inclusive, esconder tal situação de seus amigos e colegas.
Quero mostrar, com o relato de meu caso, que os filhos nem sempre são resultado do ambiente familiar. Os filhos do pastor humilde que, por força de suas dificuldades financeiras, tem uma vida desajustada, demonstram ser ajustados, educados e orgulhosos de seu pai, enquanto meus filhos, que sempre tiveram tudo o que quiseram, por não termos dificuldades financeiras, são mal educados, desajustados e têm vergonha do pai”.
Todos os presentes ouviram tal relato. Alguns se entreolharam evitando
comentários, já que ali se descortinava um caso claríssimo de dissimulação da sua verdade.
Não que ele estivesse mentindo propositadamente, mas sim montado em uma ilusão que acredita verdadeira e que o torna totalmente ausente da realidade. Para ele o desajuste de seus filhos é culpa dos próprios filhos ou até, quem sabe, uma possessão satânica, fora de seu controle como pai e como pastor.
Sua mente está bloqueada, fazendo uso da racionalização com uma verdadeira parede de concreto armado, onde os tijolos foram encontrados na sua religião. Sua preocupação na dissimulação de sua verdade interior é tão forte que o impede de manter sua vida e a de seus filhos dentro de um clima de harmonia, paz e amor, como se espera de alguém dedicado ao ministério religioso.
O que se pode esperar dessa pessoa como pastor... como pai... ou como psicanalista?
Infelizmente confirmamos, mais tarde, que suas atitudes não passavam de racionalizações, ou seja, mecanismos de defesa que sempre encontram razões
para justificar condutas instintivas desaprovadas moral e socialmente, ou seja:
"forma de substituir, por boas razões, uma determinada conduta que exija explicações, de um modo geral, da parte de quem a adota. ''(Carvalho, 1998, pág.
Quando no exercício de sua nova atividade, a psicanálise, esse religioso "atacou" sua paciente em plena sessão.
Como não poderia deixar de ser, sua racionalização encontrou o termo "neurose de curiosidade" para justificar sua própria atitude...
Seus filhos, quando diziam ter vergonha de sua profissão, longe de estarem desajustados e mal educados, demonstraram que perceberam a ocultação de sua verdadeira personalidade.
Tal mecanismo de defesa só serviu para montar, em sua mente, que sua vida poderia ser dupla em todos os seus aspectos, mantendo uma imagem pura e limpa exteriormente, mas dando vazão a seus instintos "por baixo do pano".

O homossexual "curado"
Também protegido pelas paredes de uma fervorosa dedicação religiosa está o homossexual curado.
Não pretendemos negar a possibilidade de sua cura, mas não podemos entender a cegueira das pessoas em determinados casos tão flagrantes e que acabam determinando tragédias evitáveis, explicadas como fatalidades... ou possessões. Conheci um caso, na Inglaterra, a quem darei o nome de Peter, que mantinha um comportamento homossexual evidente durante a pré-adolescência.
A pressão dos pais, evangélicos fervorosos, conseguiu a mudança completa do comportamento de Peter, montando em sua consciência uma realidade heterossexual padrão.
A forma que os pais encontraram para exercer o poder dessa mudança foi, certamente, repressora, e sabemos que '~..por causa das repressões, o neurótico perdeu muitas fontes de energia mental que lhe teriam sido de grande valor na formação do caráter e na luta pela vida. "(Freuc/, 1974, pág. 43)
Essa mudança, embora tenha parecido a todos nós como uma espécie de sublimação forçada foi, na realidade, uma formação reativa.
Quando Peter refugiou-se nos estudos bíblicos, dedicando-se com verdadeiro afinco, fez parecer a todos nós que estaria havendo um processo positivo de sublimação, e acredito que este seria o momento de se recorrer ao psicanalista, mas suas atitudes passivas despreocuparam seus pais, que desaprovavam qualquer recurso nesse sentido.
Era evidente que o conflito interno estava presente e forte, enfraquecendo seu ego, tornando-se imprescindível a ajuda externa. "0 médico analista e o ego enfraquecido do paciente, baseando-se no mundo externo real, têm de reunir-se num partido contra os inimigos, as exigências instintivas do id e as exigências
conscienciosas do superego. "(Freuc/, 1974, pág.124).
Mais tarde Peter veio a se tornar pastor, reforçando em todos nós o sentimento de que havia ali uma sublimação e possivelmente não traria problemas maiores ao seu comportamento.
Para sua percepção consciente não havia outro pensamento senão o do crescimento na fé, parecendo, a todos os seus amigos e conhecidos, que tinha alcançado a cura.



Casou-se e teve filhos.

A "pretensa"sublimação de Peter, entretanto, construiu uma barreira psicológica tão forte que tornou-o extremamente intolerante para com qualquer tipo de tendência homossexual, o que veio trazer a característica bastante próxima da formação reativa.
Se fosse realmente a sublimação como todos nós acreditávamos a princípio, estaria sendo eliminado aos poucos, ou até de uma só vez, o impulso homossexual preexistente, já que nesse caso "...os impulsos sublimados descarregam-se, se bem que drenados por uma trilha artificial enquanto os outros não se descarregam. Na sublimação, cessa o impulso original pelo fato de que a respectiva energia é retirada em benefício da catexia do seu substituto. Nas outras defesas, a libido do impulso original é contida por uma contracatexia elevada" (Fenichel 1997, págs.131 e 132).
Por diversas vezes tentei, de forma sutil, mostrar-lhe que a intolerância é o maior dos males do homem, certamente levando-o às discussões, às brigas, aos assassinatos e às guerras, ou seja, trazendo quase sempre resultados desastrosos. Mas a reação que observei foi característica de um neurótico obsessivo, já que demonstrou clara ojeriza pelo comportamento homossexual das pessoas, como se nunca, em sua vida, tivesse tido, ele mesmo, tal comportamento.
Por mais que eu insistisse na necessidade da compreensão das diferenças individuais, seu comportamento tornava-se mais agressivo e extremado. "Para escapar ao perigo da punição por parte do superego, o ego se modifica, transformando os impulsos do id em seu oposto e interceptando-os,' isto leva a formação de reações, que mudam o caráter do neurótico obsessivo. "(Numberg,
1989, págs.255,256). (Lembro que toda interferência minha nesse caso deveu-se apenas a amizade que tinha, e ainda tenho, com seus pais, britânicos conservadores, sem qualquer conotação de tratamento, pois nem me passava pela cabeça, naquela época, em me dedicar à psicanálise nem ao exercício de qualquer outra forma de terapia psicológica, muito embora eu já me dedicasse, desde a década de setenta, ao estudo da mente humana).
Os impulsos homossexuais de Peter não estavam sendo descarregados como normalmente ocorre na sublimação, mas contidos, como ocorre na formação reativa, e tenho muita dificuldade, entretanto, em definir claras mudanças em seu caráter.
Embora houvesse a clara ojeriza declarada ao homossexualismo, haviam poucos sinais de utilização de impulsos heterossexuais exagerados, como seria determinante na formação reativa: '~s formações reativas são capazes de usar impulsos cujos objetivos se opõem aos objetivos do impulso original. Podem aumentar a força dos impulsos desta ordem tanto melhor quanto servem para conter o impulso original, ' assim é que um conflito entre um impulso instintivo e uma ansiedade ou um sentimento de culpa toma, por vezes, a aparência de conflito entre instintos opostos." (Fenichel, 1997, pág. 141).
Mas a sua séria dedicação a vida religiosa pode ter ocultado de alguma forma essa característica também importante da formação reativa, que é a utilização de impulso oposto ao que está sendo contido.
Em um determinado dia foi procurado, para aconselhamento, por um jovem da igreja, a quem chamaremos de Trevor, e que se descobriu com tendências homossexuais.
O comportamento neurótico bastante intolerante de Peter alcançou as raias do absurdo, expulsando o rapaz do templo, chamando-o de herege e dizendo-o possuído pelo demônio.
Trevor suicidou-se no mesmo dia, deixando para seus pais uma carta onde alegava estar livrando sua família do demônio que se apossou de seu corpo...
Peter continua pastor...

A "possessão demoníaca"
Toquei algumas vezes no termo possessão, devendo, então, explicar nosso ponto de vista.
Minhas observações levam a imaginar que não existe melhor diagnóstico para os problemas que não se consegue resolver ou para aqueles dos quais se deseja retirar nossa parcela de culpa, do que a possessão demoníaca.
Esses são os tijolos que faltavam para completar o imenso muro que separa nossa verdade interior da realidade virtual.
O pai se livra da culpa de não ter sabido passar o verdadeiro amor aos filhos; o pastor (ex-homossexual) evita o remorso por não ter evitado o suicídio do discípulo gay; e assim por diante.
Com a extinção do inferno, determinada recentemente pela Igreja Anglicana na Inglaterra, podemos até imaginar que poderão também cassar o mandato do demônio, inviabilizando tais desculpas, o que poderia levar tais pessoas a uma realidade verdadeiramente real...

































Conclusão

Minha preocupação está nos mecanismos de defesa atuando de forma negativa e perigosa em pessoas que exerçam alguma influência nas comunidades.
Meu medo é a repetição dos fatos históricos conhecidos, resultando em grandes holocaustos, tragédias e atrocidades. ­
Os psicanalistas têm a obrigação de reter o conhecimento do processo do tratamento, mas só se pode curar os que se apresentam espontaneamente, já que o trabalho se processa nesse sentido.
Como cidadãos, nossa luta deveria ser tentar convencer tais pessoas a se conhecerem melhor, buscando sua verdade interior e reduzindo as intolerâncias, mas nos falta o conhecimento e as armas.
Como cidadãos e psicanalistas temos o dever e o conhecimento. As armas são: as aulas, para os professores; os programas de rádio e TV, para os radialistas; os jornais e revistas, para os jornalistas; os livros, para os escritores; etc. Não somos idealistas sonhadores, mas sim batalhadores por uma abertura de mentes e corações, de modo a reduzir as diferenças entre as pessoas conseguir a união de seus pontos comuns, em busca do respeito à harmonia do universo.
E esse curso pode trazer grandes resultados nesse sentido, se conseguirmos desarmar os nossos companheiros de seus fanatismos mutiladores do pensamento e da consciência, com abordagens claras e bastante didáticas, conforme estão sendo passadas as disciplinas.











BIBLIOGRAFIA


Freud,1974: Freud, Sigmund. Cinco lições de psicanálise (Os Pensadores). São Paulo: Abril S.A. Cultural e Industrial, 1974.
Numberg, 1989: Numberg, Herman. Princípios da psicanálise. São Paulo, 1989.
Fenichel, 1997: Fenichel, Otto. Teoria psicanalítica das neuroses. São Paulo: Atheneu, 1997.
Carvalho, 1998: Uyratan Silva de Carvalho. Psicanálise I. Niterói: SPOB, 1998

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